ALDEIA DE MUITAS TRIBOS
Final dos anos 80, toda a década de 90 e início de 2000 foram de extrema importância para as diversas tribos urbanas que habitavam o centro da cidade. O local de reunião dessas diferentes formas de expressão era a Praça do Congresso. Dentre as várias tribos, estavam os skatistas.
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| No registro, encontro de gerações no Old School Session (2015), na Praça pós reforma. Antigamente era ponto de encontro das tribos urbanas de Manaus. |
Eram headbangers, punks, capoeiristas, estudantes, cheiracolas, putas, noiados, traficantes, ladrões, casais de namorados, mendigos, vendedores de banana frita, pipoca, picolé da massa, algodão doce, cheiro de tacacá, salgado de macaxeira e marijuana pelo ar, enquanto o Trem da Alegria passava a todo tempo ao redor das Praças da Saudade e Congresso. As manobras rolavam no solto nos bancos. Todo dia tinha sessão. Pra quem morava longe, aos sábados e principalmente nos domingos, era normal entrar no busão por volta das 15 da tarde para chegar lá e sugar as manobras dos mais feras.
Não havia pistas nessa época. O som que embalava era o rock. Calças de moletom, bermudões de flanela, canvas e velcro era quase unanimidade. O skate já se mostrava muito mais que um esporte: um movimento urbano, um fato social.
Descendo a Eduardo Ribeiro a galera treinava os slides como quem praticava o downhill na forma mais suave. Logo embaixo, as calçadas e bordas iam aparecendo na frente das lojas, até chegar ao chafariz da Praça do Relógio. Pura diversão. Improviso.
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| Alex Borja manobrando no banco. Um dos caras que elevou o nível do skate manauara. Foto: Erick Dammon. |
A PRAÇA DA SAUDADE É SÓ SAUDADES E CONGRESSO ENTROU EM ETERNO RECESSO PARA O SKATE
Muitos dos skatistas que hoje são conhecidos na cena local passaram pelo Congresso e reconhecem que foi uma escola sem igual do que é skate e do que é rua no seu sentido mais amplo da palavra."O que o Congresso representa? Vivencia, aprendizagem, escola de rua; minha segunda casa... Começo de uma evolução constante até os dias de hoje, apesar de não ser mais skatável." Registrou Gladson Pão, uma das figuras mais destacadas daquela época e que ainda hoje se encontra envolvido, mesmo após uma fatalidade que quase tirou sua vida. E continua:
"São 26 anos de skate. O primeiro contato foi quando eu era moleque. Eu via vários comboios de skatistas passando e não sabia para onde eles iam e um dia eu segui junto com dois amigos e paramos no Centro, não precisamente no Congresso, mas na Eduardo Ribeiro, Prefeitura e Praça da Saudade. Era final de 89. Depois o Congresso virou point."
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| Gladson Pão na Praça da Saudade, outro Pico do Centro que hoje já não se anda mais de skate como antes. |
Como o skate já havia se firmado em 2000, as meninas já começavam a entrar devagarzinho nos grandes grupos dominados pelos caras. Um dos nomes que podemos citar é o de Gilmara Freitas, embora não tenha sido a primeira menina a andar no Congresso e na Saudade foi única que encontramos para esta reportagem. "É uma pena que hoje é inviável andar ali depois da reforma. Não tivemos a mesma sorte que os paulistas quanto à praça Roosevelt."
Gilmara que hoje é licenciada em ciências biológicas e professora, mas ainda anda de skate, lembra que seu primeiro contato com o skate foi em 2003 na Praça do Congresso "Era inevitável não reparar as manobras de bordas e de solo. A gente saia da aula e se reunia na praça pra bater papo e sempre o movimento dos skatistas chamava a nossa atenção." Era um terreno dominado por meninos, mas a vontade despertou quando percebeu que havia meninas praticando o skateboard. "Eu via a Lídia Barbosa. Seu jeito feminino no meio dos rapazes me chamou a atenção. Havia outras, como a Garrafinha e a Marfisa, mas a Lídia tinha um estilo diferenciado que me despertou a vontade de querer fazer o mesmo."
| Uma visão da praça antes da Reforma cujo nome oficial é Antônio Bittencourt. |
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| Após a reforma de 2012 a praça tornou-se totalmente inviável para a prática do skate. |
PRAÇA ROOSEVELT E A VIDA EM SOCIEDADE
Bem diferente do que foi feito aqui, em São Paulo, em uma das praças mais conhecidas nacional e internacionalmente, os skatistas foram convidados a resolver um problema que há tempos se estendia: a convivência pacífica e ordeira entre frequentadores, transeuntes e skatistas. Conforme o skatista profissional André Hiena a reforma foi boa mas a limitação do espaço não é legal: "A socialização entre skatista e as demais pessoas tem que ocorrer." Ressaltou em uma entrevista para a TV local daquele estado.![]() |
| A reforma da Roosevelt também ocorreu em 2012. Contudo, representante do skate foram chamados para opinar na obra e a praça ganhou uma espécie de Skate Plaza. |
O valor cultural e histórico da praça Roosevelt não é maior e nem menor do que o Congresso, a vida em sociedade é algo é difícil, mas é preciso que representantes se mostrem atentos às mudanças. Ainda a exemplo da praça Roosevelt, alguns moradores das proximidades da praça disseram por meio das redes e mídias sociais que todas as vezes que tentaram afastar os skatistas a praça ficou muito vazia e portanto, mais perigosa. O número de assaltos aumentou. Ou seja, o espaço público deve ser utilizado por todos, embora uma parte das pessoas não compreenda isso nem lá, nem cá. Se aqui colocaram vigilantes e tornaram o piso, os bancos e a praça, de um modo geral, impraticáveis para o skate, lá ocorreu um dos fatos mais vultuosos de violência já registrados envolvendo skatistas. Guardas Civis Metropolitanos usaram de excessos para proibir o skate na praça. Teve agressões físicas, xingamentos, spray de pimenta e processo contra os agentes (segue o link).
Sabemos o que deve ser feito pelas autoridades, mas o que deve ser feito por nós para que o skate seja tratado como esporte e tenha seu devido reconhecimento? Onde podemos estar falhando? Não podemos culpar apenas as autoridades "competentes" e governantes por casos como esse da praça do Congresso. Somos quase que independentes. Às vezes tudo o que precisamos é um chão liso e uma boa iluminação, porque os obstáculos nós construimos. Quantas vezes já não fizemos isso? Ainda fazemos isso. Veja o Mindú! A Praça do "O", entre outros picos que surgiram e surgem ao longo dos anos. Temos algumas pistas, mas ainda é pouco. O número de de skatistas só cresce. O que fazer para ficar melhor?
Fica o link do vídeo produzido por Leonardo Fortes onde consta alguns registros do Congresso.
Gostaria de citar muitos nomes daquela época mas correria o risco de ser injusto. Porém, como eu era tímido e corria por fora do círculo dos populares, só vendo os melhores andarem, aprendendo de longe. Quero agradecer a duas pessoas que já se encontram em outro plano (até onde eu sei) André Cabecinha pela parceria e Riquinho por sempre me reconhecer e ir falar comigo mesmo que eu fosse um cara que não me envolvia muito e pelas dicas das manobras e outras cositas mas... Salve Congresso Family e família skateboard! É hora de juntar tudo.





Juntos e misturados !👊✌
ResponderExcluirCongresso Family...