segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ADEUS, CONGRESSO!


ALDEIA DE MUITAS TRIBOS

Final dos anos 80, toda a década de 90 e início de 2000 foram de extrema importância para as diversas tribos urbanas que habitavam o centro da cidade. O local de reunião dessas diferentes formas de expressão era a Praça do Congresso. Dentre as várias tribos, estavam os skatistas.

No registro, encontro de gerações no Old School Session (2015), na Praça pós reforma. Antigamente era ponto de encontro das tribos urbanas de Manaus.


Eram headbangers, punks, capoeiristas, estudantes, cheiracolas, putas, noiados, traficantes, ladrões, casais de namorados, mendigos, vendedores de banana frita, pipoca, picolé da massa, algodão doce, cheiro de tacacá, salgado de macaxeira e marijuana pelo ar, enquanto o Trem da Alegria passava a todo tempo ao redor das Praças da Saudade e Congresso. As manobras rolavam no solto nos bancos. Todo dia tinha sessão. Pra quem morava longe, aos sábados e principalmente nos domingos, era normal entrar no busão por volta das 15 da tarde para chegar lá e sugar as manobras dos mais feras.

Não havia pistas nessa época. O som que embalava era o rock. Calças de moletom, bermudões de flanela, canvas e velcro era quase unanimidade. O skate já se mostrava muito mais que um esporte: um movimento urbano, um fato social.

Descendo a Eduardo Ribeiro a galera treinava os slides como quem praticava o downhill na forma mais suave. Logo embaixo, as calçadas e bordas iam aparecendo na frente das lojas, até chegar ao chafariz da Praça do Relógio. Pura diversão. Improviso.

Alex Borja manobrando no banco. Um dos caras que elevou o nível do skate manauara. Foto: Erick Dammon.

A PRAÇA DA SAUDADE É SÓ SAUDADES E CONGRESSO ENTROU EM ETERNO RECESSO PARA O SKATE

Muitos dos skatistas que hoje são conhecidos na cena local passaram pelo Congresso e reconhecem que foi uma escola sem igual do que é skate e do que é rua no seu sentido mais amplo da palavra.
"O que o Congresso representa? Vivencia, aprendizagem, escola de rua; minha segunda casa... Começo de uma evolução constante até os dias de hoje, apesar de não ser mais skatável." Registrou Gladson Pão, uma das figuras mais destacadas daquela época e que ainda hoje se encontra envolvido, mesmo após uma fatalidade que quase tirou sua vida. E continua:
"São 26 anos de skate. O primeiro contato foi quando eu era moleque. Eu via vários comboios de skatistas passando e não sabia para onde eles iam e um dia eu segui junto com dois amigos e paramos no Centro, não precisamente no Congresso, mas na Eduardo Ribeiro, Prefeitura e Praça da Saudade. Era final de 89. Depois o Congresso virou point."


Gladson Pão na Praça da Saudade, outro Pico do Centro que hoje já não se anda mais de skate como antes.




Como o skate já havia se firmado em 2000, as meninas já começavam a entrar devagarzinho nos grandes grupos dominados pelos caras. Um dos nomes que podemos citar é o de Gilmara Freitas, embora não tenha sido a primeira menina a andar no Congresso e na Saudade foi única que encontramos para esta reportagem. "É uma pena que hoje é inviável andar ali depois da reforma. Não tivemos a mesma sorte que os paulistas quanto à praça Roosevelt."
Gilmara que hoje é licenciada em ciências biológicas e professora, mas ainda anda de skate, lembra que seu primeiro contato com o skate foi em 2003 na Praça do Congresso "Era inevitável não reparar as manobras de bordas e de solo. A gente saia da aula e se reunia na praça pra bater papo e sempre o movimento dos skatistas chamava a nossa atenção." Era um terreno dominado por meninos, mas a vontade despertou quando percebeu que havia meninas praticando o skateboard. "Eu via a Lídia Barbosa. Seu jeito feminino no meio dos rapazes me chamou a atenção. Havia outras, como a Garrafinha e a Marfisa, mas a Lídia tinha um estilo diferenciado que me despertou a vontade de querer fazer o mesmo."



Uma visão da praça antes da Reforma cujo nome oficial é Antônio Bittencourt.
Após a reforma de 2012 a praça tornou-se totalmente inviável para a prática do skate.

 PRAÇA ROOSEVELT E A VIDA EM SOCIEDADE

 Bem diferente do que foi feito aqui, em São Paulo, em uma das praças mais conhecidas nacional e internacionalmente, os skatistas foram convidados a resolver um problema que há tempos se estendia: a convivência pacífica e ordeira entre frequentadores, transeuntes e skatistas. Conforme o skatista profissional André Hiena a reforma foi boa mas a limitação do espaço não é legal: "A socialização entre skatista e as demais pessoas tem que ocorrer." Ressaltou em uma entrevista para a TV local daquele estado.

A reforma da Roosevelt também ocorreu em 2012. Contudo, representante do skate foram chamados para opinar na obra e a praça ganhou uma espécie de Skate Plaza.

 O valor cultural e histórico da praça Roosevelt não é maior e nem menor do que o Congresso, a vida em sociedade é algo é difícil, mas é preciso que representantes se mostrem atentos às mudanças. Ainda a exemplo da praça Roosevelt, alguns moradores das proximidades da praça disseram por meio das redes e mídias sociais que todas as vezes que tentaram afastar os skatistas a praça ficou muito vazia e portanto, mais perigosa. O número de assaltos aumentou. Ou seja, o espaço público deve ser utilizado por todos, embora uma parte das pessoas não compreenda isso nem lá, nem cá. Se aqui colocaram vigilantes e tornaram o piso, os bancos e a praça, de um modo geral, impraticáveis para o skate, lá ocorreu um dos fatos mais vultuosos de violência já registrados envolvendo skatistas. Guardas Civis Metropolitanos usaram de excessos para proibir o skate na praça. Teve agressões físicas, xingamentos, spray de pimenta e processo contra os agentes (segue o link).




Sabemos o que deve ser feito pelas autoridades, mas o que deve ser feito por nós para que o skate seja tratado como esporte e tenha seu devido reconhecimento? Onde podemos estar falhando? Não podemos culpar apenas as autoridades "competentes" e governantes por casos como esse da praça do Congresso. Somos quase que independentes. Às vezes tudo o que precisamos é um chão liso e uma boa iluminação, porque os obstáculos nós construimos. Quantas vezes já não fizemos isso? Ainda fazemos isso. Veja o Mindú! A Praça do "O", entre outros picos que surgiram e surgem ao longo dos anos. Temos algumas pistas, mas ainda é pouco. O número de de skatistas só cresce. O que fazer para ficar melhor?


Fica o link do vídeo produzido por Leonardo Fortes onde consta alguns registros do Congresso.



Gostaria de citar muitos nomes daquela época mas correria o risco de ser injusto. Porém, como eu era tímido e corria por fora do círculo dos populares, só vendo os melhores andarem, aprendendo de longe. Quero agradecer a duas pessoas que já se encontram em outro plano (até onde eu sei) André Cabecinha pela parceria e Riquinho por sempre me reconhecer e ir falar comigo mesmo que eu fosse um cara que não me envolvia muito e pelas dicas das manobras e outras cositas mas... Salve Congresso Family e família skateboard! É hora de juntar tudo.



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